PRT-7a. Região - Assessoria de Comunicação Social / Biblioteca Jeferson L.P. Coelho
Caderno/Editorial: NEGÓCIOS Data: 1º/Maio/2006
Coluna/Colunista: Págs. 01 e 03

DIA DO TRABALHO
Transformação no perfil do emprego

Emprego nos moldes do século XX — fora de casa, estável e com garantias — não terá espaço para se manter nas próximas décadas, alertam os consultores em mercado de trabalho. As novas ferramentas e estilos de ocupação criados significam novas oportunidades e incertezas para o futuro.

As mudanças no mundo do trabalho vêm acontecendo em ritmo acelerado e alguns sinais indicam que o emprego tal como o conhecemos no século XX está cada vez mais distante. Arrumar-se, sair de casa e se dirigir a um escritório com a certeza de segurança e estabilidade é uma rotina que pode estar com seus dias contados. Os avanços tecnológicos, a precarização e a flexibilidade dos vínculos devem ser levados em conta na expectativa de trabalhadores do mundo todo. No Brasil não é diferente.

Atualmente, cerca de 60% da base de trabalho do País não tem carteira assinada. Segundo a pesquisa divulgada semana passada pelo Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), 56,08% dos fortalezenses — ou 475.459 trabalhadores — estão no mercado informal. Os atuais níveis são os maiores desde 1995. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, nos anos 80, de cada dez ocupações geradas, oito eram assalariadas, sendo sete delas com carteira assinada. Na década seguinte, já eram apenas três assalariados, um com carteira assinada.

A consolidação dessa tendência está no centro dos debates. As mudanças têm sido mais rápidas do que se imaginava. O escritor e consultor de empresas Ricardo Neves cita o exemplo da automação bancária, que teria reduziu drasticamente os postos de trabalho, sem prejuízos nos serviços. Para ele, aconteceu justamente o contrário: com o advento do caixa eletrônico, surgiram 200 mil pontos de atendimento, contra os 30 mil bancos que existiam antes.

“Agora, imagine o acesso de serviços bancários pelo celular. Estima-se que sejam 90 milhões de aparelhos no País. É um salto enorme, uma grande mudança não apenas no atendimento bancário, mas também no estilo de vida das pessoas”, avalia Neves, que é também colunista da revista Época, onde analisa os rumos do mercado de trabalho.

Em sua visão, emprego nos moldes do século XX — fora de casa, estável e com garantias — não terá espaço para se manter. Para ele, não haverá mais emprego, e sim trabalho. A transição, afirma, não será tranqüila: “Um modelo leva duas ou três décadas para se consolidar. Essa passagem é mais dolorosa para quem tem mais de 40 anos e viveu sob o antigo modelo. Já a geração que hoje tem entre 10 e 20 anos, terá menos incertezas em relação ao futuro”, argumenta.

Mesmo admitindo que é impossível prever se as mudanças acarretarão uma vida melhor ou pior, o consultor, acredita que essas novas ferramentas significam novas oportunidades. Por conta disso, ele afirma que o Brasil e os países em desenvolvimento saem na frente nessa nova realidade que se configura. Na Europa, onde o estado de bem-estar social teve força durante o século passado, o impacto é bem mais forte e difícil de assimilar, na opinião dos especialistas em mercado de trabalho. Isso porque essa nova ordem significa enxugar o Estado, flexibilizar trabalho e criar novos estilos de vida. “Os recentes protestos na França mostram que a população ainda não aceita as transformações”, avalia.

Como a divisão entre o privado, o público e o pessoal deve se tornar cada vez mais indefinida, ele argumenta que conduzir bem esse processo vai depender sobretudo das lideranças de cada país. “Leva vantagem quem olhar o século XX pelo retrovisor, em vez de caminhando de costas”, diz.
Mônica Lucas


Indústria satisfeita com terceirização

Dois terceirizados pelo preço de um empregado. Esse é o principal fator que tem levado a indústria cearense a fazer essa substituição. “O (salário) mínimo é de R$ 350,00, mas o funcionário acaba saindo por R$ 700,00 por conta dos encargos sociais, que são muito elevados”, afirma Francisco Ferreira Alves, coordenador de Economia e Estatística do Instituto de Desenvolvimento Industrial do Ceará (Indi), ligado à Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).

Para ele, a carga tem sido uma limitação ao emprego formal. Apesar de a indústria estar satisfeita com o resultado dos terceirizados, Ferreira defende que os empregos formais são necessários. A saída ideal, acredita, seria a terceirização de alguns segmentos na indústria. O melhor seria especializar-se e ter que for acessório de melhor qualidade via terceirização para ter mais competitividade.

De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego, mais da metade das empresas industriais no Ceará não tem vínculos formais. “Para que um banco, por exemplo, precisa ter um parque gráfico? É mais vantajoso ter o mínimo para uma demanda diária e terceirizar o trabalho mais pesado”, diz o economista. (ML)

Para empresas, importante é o resultado

Após sete anos trabalhando no escritório da Johnson & Johnson, André Bezerra, supervisor de vendas no varejo para o Nordeste, teve a oportunidade de passar a trabalhar em casa. Isso foi há dois anos e ele não se arrepende da mudança, que permite ao executivo administrar o próprio tempo e trabalhar com mais tranqüilidade.

A empresa disponibilizou para André um home office com internet de banda larga e outras facilidades. “Para a companhia, o que importa é o resultado final, que tem sido até melhor porque trabalho com mais satisfação e acabo produzindo mais”, conta. Além disso, o ambiente mais tranqüilo também ajuda no serviço: “Não tem tantos telefones tocando nem pessoas conversando ao meu redor”.

A remuneração continua a mesma, mas ele destaca o “ganho indireto” que teve com o home office: menos estresse e mais tempo para passar com a família. Quando sente falta da comunicação direta com os colegas, vai ao escritório da empresa. “Tenho essa opção, às vezes fico em casa, outras vezes vou à companhia, de acordo com a minha conveniência”. Dentro dos critérios de Ricardo Neves, André poderia ser um exemplo do trabalhador do século XXI, capaz de conciliar desafios de carreira e outras dimensões da vida pessoal. Mas um detalhe o diferencia do perfil traçado pelo pesquisador: seu vículo com a Johnson continua sendo formal, com direito a carteira assinada.

Apesar da crescente flexibilização, outras pessoas ligadas ao mercado de trabalho afirmam que o emprego vai, sim, ser diferente, mas está longe de acabar. “Trabalhar em casa não significa necessariamente o fim de todas as estruturas. Embora a expansão não acompanhe a demanda, o vínculo continua. Acredito que se passe a trabalhar mais com projetos, mas em relações fixas”, avalia Roberto Matoso, secretário Estadual de Trabalho e Empreendedorismo. Para ele, uma alternativa ao problema da demanda é o incentivo governamental ao empreendedorismo. “Mas não qualquer tipo de empreendedorismo, queremos formalizar essas pessoas. Assim, elas poderão contratar outras e elevar a formalização também no emprego”, diz.

O empreendedorismo vem servido como base às políticas públicas, não somente no âmbito estadual, mas municipal. O economista Eduardo Girão, professor da Unifor, demonstra preocupação com essa tendência: “Não se pode estimular apenas o auto-emprego. Nem todo mundo tem essa vocação, essa capacidade”. (ML)

MERCADO DE TRABALHO
Jovens e portadores de deficiência ganham espaço

O amparo legal, as iniciativas governamentais através de programas específicos de inclusão e a conscientização da sociedade estão mudando o cenário do mercado de trabalho para o jovem e, principalmente, para os portadores de deficiência.

A participação da juventude e dos portadores de deficiência no mercado de trabalho está maior. No Ceará, a pressão feita pelas duas categorias é demonstrada com o aumento da oferta de ocupação e do crescimento do volume de trabalhadores a procura de vagas.

Em relação ao jovens, embora a taxa de desemprego permaneça quase três vezes superior a de desempregados adultos, no ano de 2005, das 240,6 mil pessoas admitidas com carteira assinada em todo o Estado, 89,4 mil eram trabalhadores com idade entre 16 e 24 anos, correspondendo a 37,18% do volume total.

De acordo com o Sine/IDT, até março de 2006 existiam, no Ceará, 692.501 cadastrados a procura de trabalho. Desse total, 286.600 têm entre 18 e 29 anos e são candidatos ao primeiro emprego. “Só em Fortaleza, contabilizamos 168 mil jovens dessa faixa etária”, destaca Antenor Tenório de Brito Júnior, da coordenação estadual do Sine/IDT.

Conforme estudo coordenado pelo diretor de estudos e pesquisas do IDT, Mardônio Costa, na capital cearense, de 1993 a 2003, a taxa de ocupação jovem cresceu 9,81%, passando de 143,4 mil para 157,5 mil. Já a de desemprego, considerando o mesmo período, saltou de 21,83% para 32,20%.

De 2003 a 2005, a taxa de ocupação anual dos jovens em Fortaleza passou de 31,01% para 35,06%. Enquanto isso o desemprego caiu de 32,20% para 30,26%. O diretor lembra que, em fevereiro, a taxa de desemprego jovem na Capital foi de 27,94% (77.800 desempregados), quase o triplo do índice relativo aos 69.725 adultos à margem do mercado (9,71%).

Para Mardônio Costa, os levantamentos ratificam a ampliação da participação jovem no mercado. “A elevação da ocupação e do desemprego são sinais de que os jovens estão fazendo mais e mais pressão sobre o mercado”, explica.

Fátima Almeida, gerente da Unidade de Atendimento à Pessoa com Deficiência - da Secretaria do Trabalho e Empreendedorismo (Sete) em parceria com o Sine/IDT - diz ser protagonista da “mudança drástica no cenário do mercado em relação aos portadores de deficiência”.

“Em 1991, quando iniciamos um trabalho para incluir portadores de deficiência no mercado, encontramos muitos obstáculos, pois não contávamos com a Lei 8.213, que estipulou cotas para as empresas contratarem trabalhadores nesse perfil, nem tínhamos apoio de programas que tem aumentado a inserção desses profissionais”, recorda.

Segundo ela, enquanto de março de 1991 a dezembro de 1999, o órgão conseguiu inserir apenas 699 pessoas, de um total de 3.131 portadores de deficiência inscritos, de janeiro de 2000 a dezembro de 2005 foram colocados 7.350 em empregos de carteira assinada, de 11.143 cadastrados. “A mudança é reflexo do amparo legal, somado a iniciativas governamentais e à conscientização da sociedade”, avalia.

OCUPAÇÃO - Daniele Viana de Castro encontrou no trabalho autônomo a saída ajudar os pais no orçamento. Portadora de deficiência visual, hoje com 27 anos, cursa História na universidade e é consultora da Natura nas horas vagas. “Gosto do que faço e pretendo continuar mesmo depois de formada”, diz.

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