PRT-7a. Região - Assessoria de Comunicação Social / Biblioteca Jeferson L.P. Coelho
Caderno/Editorial: CEARÁ Data: 14/Fev/2005
Coluna/Colunista: Pág. 9

REDENÇÃO
História da escravidão é preservada em museu

A história da escravidão no Ceará e o pioneirismo de Redenção em libertar os escravos são lembrados no Museu Senzala do Negro Liberto

Rita Célia Faheina - Enviada a Redenção

Era 1º de janeiro de 1883. Naquele dia chegavam à então Vila Acarape, abolicionistas como Liberato Barroso, Antônio Tibúrcio, Justiniano de Serpa, José do Patrocínio, João Cordeiro para assistir à alforria de 116 escravos do lugarejo. A partir daquele ato, em frente à igreja matriz da localidade, não haveria mais escravos ali e a vila ganhou o nome de Redenção, pioneira em dar fim à escravidão no País. A história é contada para os visitantes do Museu Senzala do Negro Liberto, que fica no sítio Livramento, em Redenção, a 60 quilômetros de Fortaleza. Na área, encontram-se a original casa grande dos senhores do engenho, a senzala, o canavial e o antigo maquinário de fabricar a cachaça Douradinha.

Três guias de turismo e dois voluntários acompanham os visitantes. Neste período de alta estação, visitam o local até cerca de 500 pessoas por semana. A partir do início das aulas, são as escolas que marcam a visita dos estudantes. ''Tem semana que chegam de oito a nove ônibus e, no período letivo, são os tours pedagógicos'', completa a diretora do museu, Valéria Muniz. Ela morou durante 15 anos no Sítio Livramento e decidiu há um ano investir no museu e na manutenção da área histórica. O casarão foi construído no século XVIII. ''Esta é a senzala, local de descanso e de castigo dos escravos. Aqui eles eram chicoteados e, como eram muito altos - tinham cerca de 1,80 metro -, precisavam ficar deitados. Quanto mais rebeldes, mais no fundo ficavam'', explica o guia turístico Paulo Henrique Silva Soares, mostrando um cômodo úmido, mas parecido com um túnel, de teto baixo, com uma única e estreita entrada de ar com grades. No cubículo escuro, segundo o guia, eram colocados cerca de dez escravos que, quando desobedeciam ou se tornavam rebeldes, eram chicoteados e torturados psicologicamente.

Nos pequenos e escuros cubículos da senzala viviam cerca de 100 escravos. Eles eram obrigados a entrar ali às 18 horas e sair às 6 horas. Dormiam no chão, em cima de esteiras de palha. Em cada cômodo, encontram-se os instrumentos de tortura, como as correntes, algemas e gargalheiras. Essas últimas serviam para prender o escravo na parede pelo pescoço. Tinha até para criança e adolescente. ''Eles passavam menos tempo no castigo, mas era como se fosse para mostrar-lhes o que passariam quando fossem adultos'', acrescenta o guia.

Até barulho, conversas eram motivos para eles serem castigados. Muitos ficavam à noite presos em algemas nas paredes, de braços para cima. Na senzala, também foi conservado o tronco onde os negros ficavam imobilizados e apanhavam com chicotes que tinham lâminas de ferro. ''Quando algum tentava fugir, ficava no tronco durante nove noites, quando era chicoteado e depois recebia um banho de água e sal'', diz Paulo Henrique. Ainda na senzala, ele abre uma porta de ferro, sem qualquer abertura, e mostra o quarto escuro onde ''os escravos rebeldes'' ficavam. Mal consegue comportar uma pessoa adulta.

Outro tipo de castigo eram as algemas usadas pelo feitor (administrador da fazenda) para prender os escravos na parede. Eles ficavam de braços para cima, e muitos com os pés sem encostar no chão. ''Tinham muita dificuldade para respirar nessa posição'', completa o guia turístico. A passagem interna da senzala para a casa grande era por dentro do banheiro do senhor do engenho. Era uma porta forte e estreita e paredes muito largas para que os escravos não invadissem o casarão. Na sala da mucama - escrava jovem que era escolhida para auxiliar nos serviços caseiros -, tinha um janelão onde o senhor do engenho apontava a escolhida e uma porta por onde as preferidas entravam para a casa grande.

SERVIÇO - Mais informações sobre o Museu Senzala do Negro Liberto podem ser obtidas pelo telefone (85) 3332.1116, das 7 às 17 horas.

Visita inclui canavial, casarão e casa do feitor

A visita pelo Museu Senzala do Negro Liberto inclui a casa do feitor, bem mais confortável do que a senzala, e o canavial - 525 hectares de cana-de-açúcar -, onde foram encontradas ossadas humanas. O local foi cercado e denominado de Cemitério Repouso da Liberdade. O visitante conhece ainda o rio Pacoti, responsável pelo povoamento da cidade. Às margens habitavam os índios Tapuio. Há ainda a lojinha de artesanato da região, o atual engenho, em funcionamento na época da safra da cana-de-açúcar, de julho a janeiro, e o casarão que conserva móveis centenários.

Segundo Valéria Muniz, para fundar o museu - o sítio pertence ao cunhado, Hipólito Rodrigues de Paula Filho -, ela contou com a ajuda do historiador Domingos Linheiro e do museólogo André Scalavan. Há mais de um ano, trabalhou no projeto e resgate da história, e há 10 meses, o museu foi aberto ao público. Ela agora espera que o sítio Livramento seja tombado pelo patrimônio estadual. Na área, Valéria pretende criar uma central de artesanato para gerar emprego e renda para as famílias de Redenção. Ela também quer colocar na entrada um recanto para que os turistas possam se deliciar com tapiocas feitas na hora.

De acordo com Hipólito Filho, a cachaça Douradinha, fabricada no sítio Livramento, está sendo exportada para a Alemanha, Itália e Áustria. São produzidos 15 mil litros de cachaça por dia. ''No Ceará, em quase todo município tem a Douradinha no comércio'', completa. Ele também fabrica a cachaça Cearense.

Nas salas do casarão são conservados objetos doados ou dos antigos donos. Um deles é uma peça do século passado que servia para engarrafar a cachaça e colocar a tampa de cortiça. Outras peças históricas são um pilão de pedra e um tabuleiro cristalino pertencente à família de Juvenal de Carvalho, um dos donos do casarão, que era usado para descascar e triturar arroz, milho e café. Existem ainda uma coleção de cédulas antigas da época da abolição e documento de compra e venda de escravos.

O CIDADÃO
Da França para Redenção

Turistas estrangeiros interessados na História do Brasil fazem questão de conhecer o Museu Senzala do Negro Liberto. É o caso dos estudantes François Clabaut e Virginie Larde. Os dois moram em Boulogne, no sul da França, e estão em Fortaleza passando férias. François cursa Educação Física e Virginie faz curso de Inglês, mas o casal ficou interessado em conhecer museus cearenses e os principais acontecimentos do Estado. ''É bem interessante saber da época da escravidão no Brasil e como os negros foram libertos. É um outro aspecto do País que fico conhecendo'', observa François. Virginie disse que já conhecia alguns fatos históricos brasileiros, inclusive da época da escravatura, mas ficou impressionada em ver os locais onde os negros eram torturados.

Rosal da Liberdade

Na subida do Maciço de Baturité, Redenção é a primeira cidade, indo pela rodovia CE-060. O trajeto de 60 quilômetros, a partir de Fortaleza, é de cerca de uma hora. Logo na entrada da cidade tem o Monumento da Negra Nua, que marca a libertação dos escravos. Ao lado fica a Fazenda Livramento da Douradinha.

O nome Redenção é para lembrar que a cidade serviu de exemplo como primeiro município brasileiro a libertar os escravos antes da Princesa Isabel assinar a Lei Áurea, que determinava o fim da escravidão no País. Redenção nasceu com o nome de Acarape. Atualmente os dois são municípios vizinhos.

Também conhecida como ''Rosal da Liberdade'', Redenção tem uma população de cerca de 25 mil habitantes e a padroeira é Nossa Senhora da Conceição. A cidade foi criada em 1868, sendo instalada em 21 de julho de 1871. O acesso pode ser feito também pela BR-116 ou pela CE-354.

Além da Fazenda Livramento, guardam recordações do período colonial o Sítio Guassi e a Fazenda Gurguri. Encontram-se intocados mobiliários da época, casas com paredes de meio metro de largura, capela, troncos de amarrar escravos e engenhos de cana-de-açúcar.

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